Uma Análise Crítica a chamada cultura higienista, que ganhou força especialmente entre o final do século XIX e início do século XX, foi um movimento que buscava impor normas de saúde, limpeza e comportamento à sociedade. Embora tenha contribuído para avanços sanitários, também carregava dimensões de controle social, exclusão e preconceito.
a) Controle Social e Exclusão
- O higienismo funcionava como uma ferramenta de disciplinamento social, impondo regras de conduta e padrões de vida considerados “adequados”.
- Populações pobres, marginalizadas e consideradas “desordeiras” eram alvo de políticas de remoção, internação ou isolamento.
- A lógica era de que a “doença” e a “sujeira” estavam associadas à pobreza, justificando práticas de exclusão e segregação urbana.
b) Mudança de Hábitos (“Civilizar”)
- O discurso higienista buscava moldar comportamentos: hábitos de higiene pessoal, alimentação, moradia e até lazer.
- A ideia de “civilizar” estava ligada a impor padrões de vida europeizados, vistos como superiores.
- Essa tentativa de transformação cultural muitas vezes desconsiderava tradições locais, impondo uma visão única de saúde e moralidade.
c) Aspecto Racista/Xenofóbico
- O higienismo também se articulava com discursos racistas e xenofóbicos, associando determinados grupos étnicos e imigrantes à insalubridade e à degeneração social.
- Negros, indígenas e imigrantes pobres eram frequentemente vistos como “ameaça” à ordem e à saúde pública.
- Essa perspectiva reforçava estigmas e justificava políticas de exclusão, contribuindo para a marginalização histórica desses grupos.
Impactos na Saúde Mental
A cultura higienista, ao mesmo tempo em que promoveu avanços sanitários, também gerou profundos efeitos psicológicos e sociais:
- No indivíduo, produziu sentimentos de inadequação, vergonha e estigmatização, especialmente entre os grupos alvo da exclusão.
- No coletivo, reforçou desigualdades sociais e raciais, criando ambientes de segregação e discriminação que fragilizam o tecido social.
- O resultado é uma herança que ainda impacta a saúde mental contemporânea, pois práticas de exclusão e preconceito continuam a gerar sofrimento psíquico e barreiras à integração social.
Evidências recentes mostram que o higienismo não é apenas um traço do passado, mas uma prática ainda viva no Estado de Santa Catarina, especialmente nas grandes cidades. Sob o discurso de “ordem pública” e “limpeza urbana”, políticas e ações vêm sendo aplicadas para remover ou controlar pessoas em situação de rua, transformando a pobreza em sinônimo de sujeira e desordem.
População em Situação de Rua (2024–2025)
Em cidades como Florianópolis, Chapecó e Balneário Camboriú, reportagens e análises apontam medidas que buscam a retirada forçada de pessoas em situação de rua. Essas ações são frequentemente descritas como higienistas, pois tratam indivíduos marginalizados como obstáculos à estética urbana e ao turismo.
Controle Migratório
Em Florianópolis, denúncias de vereadores e da mídia revelaram práticas como a “devolução” de pessoas em situação de rua na rodoviária. Sem respaldo legal, tais medidas reforçam uma lógica de exclusão, em que a cidade se protege não da pobreza em si, mas da visibilidade da pobreza em seus espaços centrais.
Lei Municipal 11.134/2024
Pesquisas jurídicas e sociológicas da UFSC identificaram a institucionalização do chamado “higienismo social” em Florianópolis. A lei busca remover pessoas em situação de rua, transformando em norma aquilo que deveria ser combatido: a criminalização da vulnerabilidade.
Raízes Históricas
O higienismo catarinense não nasceu agora. Ele remonta às reformas urbanas do início do século XX e às práticas de “pelotões de saúde” nas escolas, que reforçavam disciplina e exclusão sob o pretexto de higiene. Essa herança histórica se atualiza hoje em políticas que priorizam a estética da cidade e o interesse econômico em detrimento dos direitos humanos.
O que define a cultura higienista hoje
- Estética acima da dignidade: a cidade é pensada para agradar turistas e comerciantes, não para acolher seus cidadãos mais vulneráveis.
- Pobreza como sujeira: a marginalização é tratada como algo a ser eliminado, não como um problema social a ser enfrentado.
- Exclusão institucionalizada: leis e práticas reforçam a ideia de que certos grupos não pertencem ao espaço público.
O que define a cultura higienista hoje:
A abordagem atual prioriza a estética da cidade e o interesse do turismo ou comércio em detrimento dos direitos humanos da população marginalizada, tratando a pobreza como uma questão de “sujeira” ou desordem pública a ser eliminada.
Dimensão Nacional:
Biopolítica Urbana
- Estudos acadêmicos apontam que o higienismo nunca foi superado no Brasil; ele evoluiu como uma biopolítica do território, adaptando-se a novos discursos e técnicas.
- A lógica permanece: controlar corpos e espaços urbanos em nome da ordem, mas sempre à custa da exclusão dos mais pobres .