A questão do feminino na psicanálise acompanha sua história desde os primórdios, quando Freud se dispôs a silenciar para escutar o que tinham a dizer as histéricas, predominantemente pertencentes ao sexo feminino no registro civil.
Na medida em que ser feminina é uma questão subjetiva e evocada pela relação estabelecida com o outro, é também uma questão que reflete uma posição que pode ou não ser assumida pelas mulheres. Neste sentido, cabe inicialmente destacar que o ser mulher e ser feminina são possibilidades subjetivas diferenciadas na perspectiva teórica da psicanálise, e é também uma interrogação clínica desde a sua invenção.
Quanto às mulheres, cabe argumentar que a famosa pergunta freudiana – O que quer uma mulher? – produz até os dias atuais ecos e respostas que promovem uma busca pelo saber, por sentidos, e, por que não dizer, por tentativas de esboços teóricos e clínicos de investigação psíquica que mobilizam o contexto psicanalítico.
Na atualidade, o movimento feminista vem indagando justamente sobre a posição de objeto atribuída às mulheres. Se Lacan buscou responder àquilo que estava em pauta no movimento feminista da década de 60 e 70, hoje a questão lançada parece ser outra. Trata-se atualmente de tomar a experiência singular e o corpo como bandeira política. O “corpo plataforma” – o que afirma “meu corpo, minhas regras” – serve para aludir também às roupas, sobre as quais elas próprias querem decidir, não aceitando um sentido pressuposto ao desejo delas, por exemplo, o de que se estão com pouca roupa isso significaria uma oferta de si ou convite a qualquer tipo de abordagem erótica.
O que está em causa, portanto, é a descolagem das máscaras identitárias que estabelecem no jogo erótico o lugar de objeto para as mulheres e de sujeito de desejo para os homens, o que repete a tão combalida proposição freudiana da passividade feminina e atividade masculina.
A verdade é que, a solidão se tornou um posicionamento político, para algumas feministas. Dessa forma, diante do “declínio do viril”, as mulheres lançam outros objetivos que não implicam mudanças coletivas ou diminuição das diferenças. Embora representem a maioria da população universitária, e conquanto o mercado de trabalho acolha cada vez mais as mulheres, ainda há muito a conquistar, como melhores salários e direitos que precisam sair do papel. Uma das críticas do feminismo às mulheres da atualidade é que não emplaca novas causas, como entrar de forma mais expressiva na política e em cargos de chefia, por exemplo, o que preocupa as feministas quanto ao futuro de seu movimento.
Mesmo que, supostamente, não tenha uma causa específica nos dias atuais, o feminismo ainda persiste em sua busca e adota como discurso ideológico a igualdade de direitos e diminuição da diferença entre os gêneros, mesmo no mundo contemporâneo.
Outras questões sobre o discurso feminista surgem como forma de repensar as mulheres na cultura, buscando lançar possibilidades de articulação entre o feminismo e o pensamento filosófico e psicológico sobre a construção da subjetividade nas mulheres. Nesse sentido, autoras mulheres se lançam a subverter o pensamento posto sobre a subjetividade construída sobre o feminino através do olhar masculino, propagando criticidade aos padrões teóricos estabelecidos entre as décadas de 40 e 70.
Para as feministas, o desenvolvimento de uma linguagem capaz de representá-las completa ou adequadamente pareceu necessário a fim de promover a visibilidade política das mulheres, fato este importante, pensando na sua história, considerando que durante muito tempo foram mal representadas ou ainda não-representadas.
Mesmo que solitárias em um luta por igualde, a luta sempre trará resultados positivos para as mulheres futuras, é por elas que se luta.