Milton H. Erickson e a hipnose naturalista

A proposta de hipnose de Milton Hyland Erickson trouxe contribuições de grande relevância para o tratamento psicoterápico da dor, apesar de suas perspectivas resultarem em numerosas rupturas com o projeto moderno de ciência. Nesse sentido, ao invés de ceder à tendência comum de sua época, Erickson concebeu uma forma de tratamento a-teórica, posto que nunca demonstrou interesse ou preocupação em desenvolver uma teoria para explicar a psique humana. Sua perspectiva era a de valorização da singularidade dos sujeitos que, devido a suas complexidades e processos únicos, não poderiam ser restritos a uma estrutura geral de pensamento, como as teorias. Portanto, diante de um paciente que apresentasse demandas ligadas a dores físicas, Erickson colocava-se atento a seus aspectos singulares como também trazia importantes noções que deveriam perpassar de forma pragmática a relação terapêutica, o que o aproximou do pensamento de William James.

 

Uma das primeiras noções importantes nesse sentido era a de inconsciente, que implicava num conjunto autorregulado e independente de processos aprendidos além da consciência ordinária que poderia ser ativado em seu potencial sábio e terapêutico caso houvesse um contexto relacional adequado. Nesse sentido, ao invés de uma ideia standard sobre o transe, em que certos sujeitos seriam mais ou menos propícios para experimentá-lo, Erickson o concebia como um fenômeno cotidiano e natural em que cada sujeito experimentaria de forma particular. Sendo assim, em uma situação envolvendo dor, o terapeuta deveria estar atento aos vários tipos de aprendizado, geralmente além da consciência, desenvolvidos para lidar com ela e também às formas como o sujeito poderia acessar seu inconsciente a fim de potencializar seus recursos. Além da individualização do tratamento, com sugestões traçadas de acordo com a particularidade dos sujeitos, a hipnose seria uma forma de evocar as tendências autocorretivas naturais do inconsciente que todos possuiriam, tal como se dava na natureza sábia de Puységur em que o próprio sujeito encontrava em si os recursos para gerir seu problema.