Mais do que a teoria do poder, Foucault propõe regras ou cautelas metodológicas. Diferentemente das concepções correntes, Foucault pretende explicar o poder sem o rei como sua fonte e natureza. Depois de comparar diferentes concepções correntes de poder, mostrando sua dependência da noção de um soberano, define-se o poder em Foucault como uma relação assimétrica que institui a autoridade e a obediência, e não como um objeto preexistente em um soberano, que o usa para dominar seus súditos. Para ilustrar o conceito foucaultiano de poder, comenta-se uma situação atual da política nacional.
Para compreender o que Foucault entendia por “poder” é preciso ter uma ideia de como os filósofos antes dele interpretavam o conceito: o pai da sociologia, Max Weber, por exemplo, acreditava que o poder do Estado consistia no “monopólio do uso legítimo da força física”; já o inglês Thomas Hobbes acreditava na possibilidade de um “Estado Soberano”, em que todos abdicariam de sua liberdade em favor da paz civil, e chamou isso de Leviatã.
Foucault concebia a ideia de violência exercida pelas corporações sobre os trabalhadores; da violência dos homens sobre as mulheres no patriarcado; e da violência dos brancos sobre os negros através do racismo estrutural. Para ele, essas demonstrações de força são amostras do poder soberano descrito por Hobbes. Mas ele duvidava que o poder só pudesse assumir uma forma única, e chegou a propor outras formas que podem coexistir ou mesmo entrar em conflito umas com as outras.
Em Vigiar e Punir, uma de suas obras mais influentes, Foucault apresenta outra forma de poder: o poder disciplinar. Segundo suas análises históricas e filosóficas, a disciplina é uma maneira de fazer as pessoas se adequarem a uma determinada norma. Ao contrário da soberania, que derruba quem não a obedece, a disciplina se baseia em outras formas de agir. “Ela trabalha de maneira mais sutil, com um cuidado requintado, a fim de produzir pessoas obedientes”, explica Koopman. “Foucault chamou os produtos obedientes e normais da disciplina de ‘sujeitos dóceis’.”
Para representar essa forma do poder disciplinar, Foucault usou como exemplo o antigo e quase esquecido conceito de “Panóptico”, criado pelo filósofo Jeremy Bentham, no século 19. A ideia consiste em um modelo de prisão, no qual todas as celas estão arranjadas em forma circular. No meio do círculo, uma torre alta é colocada, de forma que quem esteja lá consiga ver o interior das celas. Mas, apesar de conseguir ver a torre, quem está dentro das celas não consegue perceber se está sendo vigiado ou não, por conta do modelo da janela (parecido com uma persiana). Com isso, os prisioneiros passam a se auto vigiar e a evitar cometer infrações porque nunca sabem se há alguém olhando ou não.
Complexa e provocativa, a obra de Foucault permanece como uma das mais importantes contribuições da filosofia para os dias de hoje. Além das relações de poder, a obra do filósofo francês também traz ensinamento sobre a própria vida. “Aqueles que temem a liberdade acham Foucault muito arriscado. Mas aqueles que estão dispostos a decidir hoje o que deve começar a ser entendido como liberdade amanhã, acham-no (…) libertador”, escreveu Koopman. “A abordagem de Foucault em relação ao poder e à liberdade, portanto, é importante não apenas para a filosofia, mas também em como a filosofia pode contribuir para a mudança de ordem das coisas nas quais nos encontramos.”