Na teoria psicanalítica de Sigmund Freud, a ideia de que o “assassinato do pai gera o supereu” é uma formulação simbólica, não literal. Ela aparece principalmente em Totem e Tabu (1913) e se articula com o Complexo de Édipo e a formação das instâncias psíquicas descritas em O Ego e o Id (1923).
Vamos organizar didaticamente:
1️⃣ O mito da horda primeva (Totem e Tabu)
Freud propõe uma hipótese mítica:
Existiria uma “horda primeva”, comandada por um pai tirânico.
Esse pai monopolizava as mulheres e o poder.
Os filhos, movidos por desejo e rivalidade, unem-se e matam o pai.
Após o assassinato, são tomados por culpa e ambivalência (ódio e amor).
Para lidar com essa culpa:
Criam o totem (substituto simbólico do pai).
Instituem regras e proibições (ex: tabu do incesto).
👉 O ponto central: o pai morto torna-se mais poderoso como lei do que era vivo.
2️⃣ Relação com o Complexo de Édipo
No desenvolvimento infantil:
A criança deseja o genitor do sexo oposto.
Vive rivalidade com o genitor do mesmo sexo.
Deseja inconscientemente “eliminar” o rival.
Mas a criança:
Teme punição (angústia de castração, no menino).
Sente amor e dependência em relação ao pai.
Diante da impossibilidade de realizar o desejo:
➡️ A criança renuncia ao desejo.
➡️ Internaliza a autoridade do pai.
Essa internalização é o nascimento do supereu.
3️⃣ O que significa “assassinato do pai”?
Não é físico. É psíquico.
Significa:
Superar a rivalidade edípica.
Renunciar ao desejo incestuoso.
Aceitar a lei da cultura.
Ao “matar” o pai como rival externo,
a criança o transforma em autoridade interna.
Ou seja:
O pai deixa de ser uma figura externa que impõe limites
e passa a ser uma instância interna que vigia, julga e pune.
Essa instância é o supereu.
4️⃣ O Supereu como herdeiro do Édipo
Freud afirma:
O supereu é o herdeiro do complexo de Édipo.
Ele se forma a partir:
Da identificação com o pai.
Da internalização das proibições.
Da culpa gerada pelo desejo hostil.
Por isso o supereu pode ser:
Moralizador
Crítico
Punitivo
Exigente
Quanto maior a repressão do desejo agressivo contra o pai,
mais severo pode se tornar o supereu.
5️⃣ Implicações clínicas
Na clínica psicanalítica, isso ajuda a entender:
Culpa excessiva
Autossabotagem
Autocrítica rígida
Sentimento constante de inadequação
Muitas vezes, trata-se de um supereu severo — resultado de identificações marcadas por medo, repressão ou autoridade rígida.
Síntese
O “assassinato do pai” em Freud representa:
✔ A superação simbólica da rivalidade edípica
✔ A internalização da lei
✔ A transformação da autoridade externa em consciência moral interna
O pai morto torna-se lei.
A culpa torna-se moral.
E dessa operação nasce o supereu.