Na beira da BR-470, em um pequeno município do médio Vale Europeu de Santa Catarina, a rotina da saúde pública revela uma realidade que deveria chocar qualquer consciência. Com pouco mais de 10 mil habitantes, a cidade guarda em silêncio uma ferida profunda: o abuso sexual infantil.
Durante os anos de 2024 e 2025, atuando como psicólogo no S.U.S, testemunhei uma média de três casos por mês encaminhados pelo Conselho Tutelar e pela Família Acolhedora, claro que os casos que chegaram a conhecimento, digo, que houve denúncias, mas existiam alguns outros que ficaram em “boatos” e não foram verificados. Três crianças, mês após mês, tendo sua infância violada, sua confiança destruída, sua vida marcada por traumas que ecoam por toda a existência.
O mais devastador, porém, é perceber que essa dor não se encerra na infância. Adultos, ao buscar atendimento psicológico, relatavam que também foram vítimas quando crianças. Histórias que se repetem décadas neste pequeno munícipio rural, como um ciclo perverso que atravessa gerações, sustentado pelo silêncio, pelo medo e pela falta de políticas públicas eficazes para prevenção e proteção.
Não se trata de números frios em relatórios. São vidas. São crianças que deveriam brincar nas praças, estudar nas escolas e crescer em segurança, mas que carregam marcas invisíveis de violência. É uma denúncia contra a negligência, contra a naturalização da dor, contra a invisibilidade de um problema que corrói o futuro de uma comunidade inteira.
O SUS, com seus profissionais dedicados, tenta ser o porto seguro em meio ao caos. Mas sem o compromisso firme das autoridades, sem investimento em políticas de proteção e educação, sem responsabilização efetiva dos agressores, continuaremos a contabilizar vítimas em vez de garantir direitos.
Quando finalmente levei ao conhecimento da Secretaria de Saúde a gravidade dos casos de abuso sexual infantil que assolavam o município, esperava encontrar acolhimento, seriedade e compromisso. No entanto, o que recebi foi deboche. O secretário, diante de relatos que expunham a dor de crianças violentadas e famílias despedaçadas, reagiu com ironia, como se fosse um assunto menor, como se a tragédia pudesse ser reduzida a uma piada de corredor.
Esse comportamento não apenas desrespeita as vítimas, mas também legitima o silêncio e a impunidade. Ao tratar com descaso uma denúncia tão grave, a autoridade máxima da saúde local falhou em sua missão de proteger vidas e garantir dignidade. O deboche, nesse contexto, não é apenas uma atitude vergonhosa: é um ato de violência.
Levei os fatos ao Ministério Público local, na esperança de que a gravidade da denúncia fosse tratada com a urgência que merece. O promotor de justiça ouviu atentamente e, em sua resposta, revelou algo ainda mais alarmante: essa realidade não se restringe ao nosso município. Casos semelhantes de abuso sexual infantil também ocorrem em outros municípios da região, desenhando um cenário de violência sistemática e invisibilizada.
Embora tenha afirmado que iria apurar e investigar, a constatação de que o problema é regional e recorrente expõe a dimensão da tragédia. Não estamos diante de episódios isolados, mas de um padrão de violação de direitos que atravessa fronteiras municipais e que exige uma resposta firme, articulada e imediata das instituições. Cada dia sem ação é um dia em que novas infâncias são roubadas, e o silêncio institucional se torna cúmplice da dor.
Durante meu tempo de trabalho no S.U.S do Estado de Santa Catarina, tive contato com médicos e enfermeiros que trabalhavam em cidades do Alto Vale, uma região um pouco mais distante, mas adentro do Estado, sentido oeste. Em nossas conversas, compartilhei a realidade dolorosa dos abusos sexuais infantis que assolavam o pequeno município onde eu atuava. O que ouvi em resposta foi devastador: todos eles relataram que em suas cidades também havia um número significativo de casos.
Essa revelação ampliou ainda mais a dimensão da tragédia. Não se trata de um problema restrito a uma comunidade isolada, mas de uma epidemia silenciosa que se espalha pelo território, atingindo diferentes cidades e deixando marcas profundas em crianças e famílias. O que deveria ser exceção se mostra como rotina, repetida em diferentes localidades, como se a violência tivesse se naturalizado no cotidiano.
O silêncio das vítimas, a negligência das autoridades e a falta de políticas públicas eficazes criam um terreno fértil para que esses crimes se perpetuem. O fato de profissionais de saúde de diferentes municípios confirmarem a mesma realidade é um alerta urgente: estamos diante de uma crise regional de direitos humanos, que exige investigação, responsabilização e ação imediata.
Não podemos aceitar que a infância seja sistematicamente violada e que a dor seja compartilhada como se fosse apenas mais uma estatística. Cada relato é uma vida marcada, uma história interrompida, um futuro comprometido. É hora de transformar essas conversas em denúncia pública, em mobilização social, em exigência de justiça.
Essa narrativa não é apenas um relato. É um grito. Um chamado urgente para que a sociedade olhe para essas crianças, para que não se permita que a violência siga sendo parte da paisagem de uma cidade pequena, escondida às margens de uma rodovia.
Não podemos permitir que a dor das vítimas seja diluída em estatísticas ou relativizada como “algo que acontece em outros lugares também”. O fato de ser recorrente não diminui a gravidade — pelo contrário, aumenta a urgência. É hora de romper o silêncio, de exigir responsabilização, de mobilizar sociedade e autoridades para que essa violência não siga invisível.
Nós, médicos, enfermeiros e psicólogos que atuamos em diferentes municípios do Alto Vale e do Médio Vale europeu de Santa Catarina, não podemos mais silenciar diante da realidade que testemunhamos em nossas práticas diárias.
Cada relato que chega às unidades de saúde é um grito sufocado de crianças que tiveram sua infância violada. Cada atendimento revela marcas profundas que não se apagam com o tempo. E quando profissionais de diferentes municípios confirmam que enfrentam a mesma tragédia, compreendemos que estamos diante de uma crise regional de direitos humanos.